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terça-feira, 4 de outubro de 2011

Resumo da obra “O futuro da democracia – uma defesa das regras do jogo” (1986), de Norberto Bobbio


Introdução

“O futuro da democracia” é dividida em 7 (sete) partes ou capítulos, sendo que cada capítulo representa uma aula/seminário iniciadas em Maio de 1984, nomeadamente: (1) O futuro da democracia; (2) Democracia representativa e democracia directa; (3) Os vínculos da democracia; (4) A democracia e o poder invisível; (5) Liberalismo velho e novo; (6) Contrato e contratualismo no debate actual; e (7) Governo dos homens ou governo das leis.

Em síntese, na sua obra Bobbio (segundo as suas próprias palavras) apresenta sinteticamente as transfigurações da democracia sob o formato de “promessas não cumpridas” ou de comparação entre a democracia ideal tal como criada por seus pais instituidores e a democracia real em que, com maior ou menor participação, devemos viver diariamente.

Capítulo 1: O futuro da democracia

Neste capítulo introdutor, Bobbio começa por admitir a impossibilidade de ver o futuro que, para ele, deriva igualmente do facto de que cada um dos homens desenha no futuro as próprias pretensões e excitações, enquanto a história avança o seu trajecto alheio às nossas preocupações, um trajecto na sua concepção, composto por milhões e milhões de minúsculas acção humanas que ninguém, mesmo o mais potente, nunca esteve em circunstâncias de apreender numa visão de conjunto que não tenha sido demasiadamente sintético, e logo, pouco evidente. Por isto que, conclui, as previsões feitas pelos grandes mestres do pensamento sobre o curso do mundo acabaram por se revelar, no final das contas, quase sempre falhadas. Por fim, Bobbio esclarece o objectivo/propósito do seu trabalho, o de fazer algumas observações sobre o estado da época dos regimes democráticos.

O autor apresenta igualmente uma definição mínima de democracia, que na verdade é constituída pelos seguintes elementos, designadamente:
  • Atribuição a um elevado número de cidadãos do direito de participar directa ou indirectamente da tomada de decisões colectivas;
  • A existência de regras de procedimento como a da maioria (ou, no limite, da unanimidade); e
  • É preciso que aqueles que são chamados a decidir ou a eleger os que deverão decidir sejam colocados diante de alternativas reais e postos em condição de poder seleccionar entre uma e outra.

É necessário, assevera Bobbio, para que se realize a última condição, que aos chamados a decidir sejam garantidos os assim denominados direitos de liberdade, de opinião, de expressão das próprias opiniões, de reunião, de associação, etc. Consequentemente, disto segue que o estado liberal é o pressuposto não só histórico mas jurídico do estado democrático. Quer dizer, é pouco plausível que um estado não liberal possa atestar um correcto exercício da democracia, e de outra parte é pouco provável que um estado não democrático seja apto de defender as liberdades elementares.

Adiante, Bobbio explica que a democracia nasceu de uma concepção individualista da sociedade, ou seja, da ideia para a qual – diferentemente à concepção orgânica, influente na idade antiga e na idade média, segundo a qual o todo precede as partes – a sociedade, qualquer forma de sociedade, e particularmente a sociedade política, é um resultado artificial da deliberação das pessoas.~

Bobbio  apresenta, por fim, seis (6) promessas não cumpridas da democracia, nomeadamente: (a) o nascimento da sociedade pluralista; (b) a revanche dos interesses; (c) o espaço limitado; (d) a derrota do poder oligárquico – nada ameaça mais matar a democracia que o excesso de democracia; (e) a eliminação do poder invisível; e (f) a educação para a cidadania.

As promessas não foram executadas por motivo de obstáculos que não estavam prenunciados ou que emergiram em consequência das transformações da sociedade civil. Esses obstáculos são:
  • O aumento dos problemas políticos que requerem competências técnicas;
  • O ininterrupto engrandecimento do aparato burocrático, de um aparato de poder sistemático hierarquicamente do vértice à base, e logo absolutamente adverso ao processo de poder democrático; e
  • O rendimento do sistema democrático como um todo.

Quanto ao futuro da democracia, a conclusão de Bobbio não é pessimista: o futuro da democracia não é caótico.

Capítulo 2: Democracia representativa e democracia directa

Bobbio parte da premissa de Jean Jacques Rousseau, quando afirmou que a soberania não pode ser representada. O autor chama atenção para o equívoco sobre a diferença entre “democracia representativa” e “estado parlamentar”.

Bobbio apresenta o conceito de democracia representativa, que significa genericamente que as decisões colectivas – as decisões que dizem respeito à sociedade inteira – são tomadas não directamente por aqueles que dela fazem parte, mas por pessoas eleitas para este intuito. Assim sendo, o estado parlamentar é uma aplicação particular, embora relevante do ponto de vista histórico, do princípio da representação, grosso modo, é aquele estado no qual é representativo o órgão central ao qual chegam as reclamações e do qual partem as resoluções colectivas indispensáveis, sendo este órgão central o parlamento. Em suma, o autor quer dizer que, do mesmo modo que nem todo estado representativo é um estado parlamentar, o estado parlamentar pode muito bem não ser uma democracia representativa.

Feitas as análises, para que exista democracia directa no sentido próprio da palavra (no sentido em que directo quer dizer que o indivíduo participa ele mesmo nas deliberações que lhe dizem respeito) é preciso que entre os indivíduos votantes e a decisão que lhes diz respeito não exista nenhum representante. De qualquer modo, se a representação por mandato não é propriamente a democracia directa, é uma estrada interposta entre a democracia representativa e a democracia directa.

Com um preceito sumário, pode-se afirmar que num sistema de democracia absoluto, as duas figuras de democracia são ambas imprescindíveis, mas não são consideradas em si mesmas, satisfatórias.

Capítulo 3: Os vínculos da democracia

Este capítulo é consagrado ao estudo dos eventuais novos sujeitos e para os eventuais novos instrumentos de intervenção, e acima de tudo, para as regras do jogo com as quais se desenrola a luta política num determinado contexto histórico. Após uma elaborada abordagem, Bobbio conclui que permanecendo-se nos termos das regras do jogo, as vias permissíveis de saída são as que são, e os passos indispensáveis para concretizá-las são calculáveis, quase, compulsivos. Sair das regras do jogo, posto que seja acessível, e que não é, mostra-se como algo que não seja apetecível, pois uma vez fendida a principal destas regras, a das eleições periódicas, não se sabe onde tudo cessará.

Capítulo 4: A democracia e o poder invisível

Nesta parte, Bobbio apresenta as dificuldades objectivas em que se encontra uma correcta aplicação do método democrático, exactamente nas sociedades em que continua a crescer a exigência de democracia.

O objectivo das suas observações não é o de fazer uma análise histórica das várias formas de poder invisível, mas o de confrontar com a realidade o ideal da democracia como governo do poder visível.

Fazendo uma abordagem sobre “o governo do poder público em público”, Bobbio considera que o princípio de que todas as deliberações e mais em geral os actos dos dirigentes devam ser sabidos pelo povo sempre foi considerado um dos eixos do regime democrático, definido como o governo directo do povo ou controlado pelo povo.

Mais ainda, considera o tema da descentralização compreendida como revalorização do relevo político da periferia com respeito ao centro. Interpreta o utopia do governo local como um ideal inspirado no princípio segundo o qual o poder é tanto mais visível quanto mais próximo está.

Contrariamente, argumenta, onde o supremo poder é oculto, tende a ser oculto também o contra-poder. A história de todo regime autocrático e a história da conjura são duas histórias equidistantes que se referem uma à outra. Onde existe o poder secreto existe também, quase como seu produto natural, o antipoder igualmente secreto ou sob a forma de conluio, complôs, conspirações, golpes de estado, tramados nos corredores do palácio imperial, ou sob a forma de rebeliões, tumultos ou insurreições arranjadas em lugares intransitáveis e inacessíveis, remotas dos contemplares dos residentes do palácio, assim como o príncipe age o mais longe possível dos olhares do vulgo. Então, o poder despótico não apenas encobre para não fazer saber quem é e onde está, mas propende também a esconder seus reais intentos no instante em que suas decisões devem tornar-se públicas.

O confronto entre o modelo ideal do poder visível e a realidade das coisas deve ser conduzido tendo presente a tendência que toda forma de dominação tem de se subtrair ao olhar dos dominados escondendo-se e escondendo, através do segredo e do disfarce. Bobbio conclui que a tendência não mais ruma ao máximo controlo do poder por parte dos cidadãos, mas ao contrário, rumo ao máximo controlo dos súbitos por parte de quem detém o poder.

Capítulo 5: O Liberalismo velho e novo

Discute o liberalismo a partir da reedição da obra clássica do liberalismo como On Liberty, de John Stuart Mill. Segundo Bobbio, o liberalismo é um movimento de ideias que passa através de diversos autores diferentes entre si, com Locke, Montesquieu, Kant, Adam Smith, Humboldt, Constant, John Stuart Mill, Tocqueville. O liberalismo é, como teoria económica, factor da economia de mercado; como teoria política, é factor do estado que governa o menos possível ou, como se diz hoje, do estado mínimo (isto é, reduzido ao mínimo necessário).

Entretanto, o liberalismo económico e o político são independentes porque a teoria dos limites do poder do estado não se refere apenas à intervenção na esfera económica, mas se estende à esfera espiritual ou ético-religiosa.

Deste ponto de vista, diz Bobbio, o estado liberal é também um estado laico, quer dizer, um estado que não se reconhece com uma destinada confissão religiosa (nem com uma determinada concepção filosófico-política, como, por exemplo, o marxismo-leninismo), e isto mesmo quando se considere que um estado pode ser laico, isto é, agnóstico em matéria religiosa e filosófica, apesar de ser intervencionista em matéria económica.

Enfim, o duplo processo de formação do estado liberal pode ser descrito, de um lado, como emancipação do poder político do poder religioso (estado laico) e, de outro, como emancipação do poder económico do poder político (estado do livre mercado). Através do primeiro processo de emancipação, o estado deixa de ser o braço secular da igreja; através do segundo, torna-se o braço secular da burguesia mercantil e empresarial. O estado liberal é o estado que permitiu a perda do monopólio do poder ideológico, através da concessão dos direitos civis, entre os quais sobretudo do direito à liberdade religiosa e de opinião política, e a perda do monopólio do poder económico, através da concessão da liberdade económica.

Adiante, Bobbio assume que o estado mínimo insurge-se contra o estado paternalista dos príncipes reformadores; o estado mínimo é hoje reproposto contra o estado assistencial, do qual se deplora que reduza o livre cidadão a súbito protegido; numa palavra, é reproposto contra as novas formas de paternalismo.

Questionando-se sobre a compatibilidade do liberalismo e democracia, o autor assume que os indicadores/observações mostram não ser mais totalmente compatíveis, uma vez que a democracia foi levada às extremas consequências da democracia de massa, ou melhor, dos partidos de massa, cujo resultado é o estado assistencial.

Na última parte do capítulo, Bobbio debruça-se sobre um novo contrato social. Este novo contratualismo moderno descende da caída de uma concepção holística ou orgânica da sociedade (o todo é superior às partes), nasce da ideia de que o ponto de partida de todo programa social de libertação é o sujeito singular com suas paixões  (a serem dirigidas ou domadas), com seus interesses  (a serem regulados e coordenados), com suas necessidades  (a serem satisfeitas ou reprimidas).

A suposição de que parte o contratualismo moderno é o estado de natureza, um estado no qual existem apenas sujeitos separados mas dispostos a se agrupar em sociedade para defender a própria vida e a própria liberdade. Partindo desta hipótese, a sociedade política torna-se um subterfúgio, um projecto a ser edificado e reedificado constantemente, um projecto nunca definitivo, a ser submetido à ininterrupta verificação.

A contemporaneidade do tema contratualista subordina-se também ao facto de que as sociedades poliárquicas, como são aquelas em que vivemos, simultaneamente capitalistas e democráticas, são sociedades nas quais grande parte das deliberações colectivas é tomada através de transacções que terminam em pactos; são sociedades, em suma, nas quais o contrato social não é mais uma hipótese racional, mas uma ferramenta de governo continuamente praticada.

Capítulo 6: Contrato e contratualismo no debate actual

Este capítulo destaca o neocontratualismo. Para Bobbio, a teoria do estado recente está toda concentrada na lei como essencial fonte de estandardização das relações de coexistência, em contraposição à figura do contrato, cuja força regular está subordinada à da lei, se explícita apenas nos limites de validade estabelecidos pela lei e, além do mais reaparece, sob a forma de direito pactício, nos casos em que a soberania do estado singular se choca com a idêntica soberania dos demais estados.

Numa sociedade democrática, diz ele, as forças políticas são os partidos ordenados – preparados acima de tudo para perseguir os votos, para procurar obter o maior número possível deles. São os partidos que solicitam e obtêm o consenso. Deles depende a maior ou menor legitimação do sistema político como um todo.

Este consenso através do voto é uma prestação positiva e, uma prestação positiva solicita geralmente uma contraprestação. Prestação e contraprestação são os elementos dos contratos bilaterais. Nestes acordos, a prestação da parte dos eleitores é o voto, a contraprestação da parte do eleito é uma vantagem (sob a forma de um bem ou de um serviço) ou a isenção de uma desvantagem.

A diferença entre a relação que se instaura entre eleitos e eleitores e a relação que se instaura entre um e outro grupo político revela-se também nas duas diversas capacidades que o bom político deve ter: na conduta da primeira, bem mais a do empresário; na da segunda, bem mais a do negociador. As qualidades do bom empresário são necessárias ao secretário-geral do partido, as do negociador ao presidente do conselho de ministros.

Ainda sobre o neocontratualismo, o autor aponta que uma das razões do desaparecimento das teorias contratualistas, entre o fim do Setecentos e o fim do Oitocentos, derivou da ideia de que o estado fosse uma coisa elevada demais para poder ser explicado como o produto artificial de um acordo entre indivíduos. Exactamente porque a teoria do contrato social se apoia sobre argumentos racionais e está ligada ao nascimento da democracia (mesmo se nem todas as teorias contratualistas são democráticas), o seu desaparecimento jamais chegou a ser total.

No entanto, quando hoje se fala de neocontratualismo com referência às teorias do contrato social, deve ficar bem claro, avança Bobbio, que uma coisa é o problema de uma refundação da sociedade à base do modelo contratualista, outra coisa é o tema do estilhaçamento do poder central em tantos poderes difusos e geralmente antagónicos, com o consequente nascimento dos assim chamados governos parciais e das relações naturalmente de tipo contratual entre uns e outros.

Em geral, o neocontratualismo, isto é, a proposta de um novo pacto social, global e não parcial, de pacificação geral e de fundação de um novo ordenamento social, uma verdadeira “nova aliança”, nasce exactamente da constatação da debilidade crónica de que dá provas o poder público nas sociedades económica e politicamente mais desenvolvidas, ou então – para usar uma palavra corrente – da crescente ingovernabilidade das sociedades complexas, remata.

Capítulo 7: Governo dos homens ou governo das leis

Neste último capítulo, Bobbio procura responder a questão qual o melhor governo, o das leis ou o dos homens? Ou posto de outra maneira, Bom governo é aquele em que os governantes são bons porque governam respeitando as leis ou aquele em que existem boas leis porque os governantes são sábios?
Primeiramente, Bobbio apresenta o primado da lei, que está fundado sobre o pressuposto de que os governantes sejam maus, no sentido de que tendem a usar o poder em benefício próprio. Vice-versa, o primado do homem está fundado sobre o pressuposto do bom governante, cujo tipo ideal, entre os antigos, era o grande legislador.

Entretanto, a resposta à questão – diz – por muito tempo predominante no curso dos séculos, foi em favor da superioridade do governo das leis, que acabou por ser geralmente negativo e bastante discutido.

Os critérios com os quais o bom governo foi distinguido do mau governo são sobretudo dois: o governo para o bem comum distinguido do governo para o próprio bem; o governo segundo leis estabelecidas – sejam elas as leis naturais ou divinas, ou as normas de costume ou as leis positivas postas pelos predecessores e tornadas hábitos do país – distinguido do governo arbitrário, cujas decisões são tomadas de vez em vez, fora de qualquer regra pré-constituída. Disto derivam duas figuras distintas mas não dissemelhantes de governante odioso: o tirano que usa o poder para satisfazer os próprios desejos ilícitos, de que fala Platão no livro IX da República; e o senhor que estabelece leis para si mesmo, ou seja, o autocrata no sentido etimológico da palavra.

A conclusão em que se depreende o autor, aliás, no que tange a sua preferência, vai para o governo das leis, não para o governo dos homens. Segundo Bobbio, o governo das leis celebra actualmente o próprio sucesso na democracia. E o que é a democracia se não um conjunto de regras (as chamadas regras do jogo) para a solução dos conflitos sem derramamento de sangue? E em que consiste o bom governo democrático se não, acima de tudo, no rigoroso respeito a estas regras? Tomando partido, o autor não tem dúvidas sobre a resposta à estas questões. E exactamente porque não tem dúvidas, conclui serenamente que a democracia é o governo das leis por excelência.

Referência

Bobbio, Norberto (1986), O futuro da democracia; uma defesa das regras do jogo. Paz e Terra: Rio de Janeiro. 

Resumo da obra de Foucault, Nascimento da Biopolítica

Resumo baseado na obra de Foucault, Nascimento da Biopolítica

IN: FOUCAULT, Michel (2008). Nascimento da Biopolítica – Curso dado no College de France (1978-1979). Martins Fontes: São Paulo.

Introdução
A presente ficha de leitura expõe um resumo da obra de Michel Foucault, intitulada Nascimento da Biopolítica, que essencialmente traduz o curso da cadeira de História dos Sistemas de Pensamento, ministrado pelo autor no College de France durante os anos de 1978 a 1979. A obra é dividida em 12 partes ou capítulos, sendo que cada uma dos tomos representa uma aula ministrada por Foucault durante o curso, são elas, nomeadamente: (i) Aula de 10 de Janeiro de 1979; (ii) Aula de 17 de Janeiro de 1979; (iii) Aula de 24 de Janeiro de 1979; (iv) Aula de 31 de Janeiro de 1979; (v) Aula de 7 de Fevereiro de 1979; (vi) Aula de 14 de Fevereiro de 1979; (vii) Aula de 21 de Fevereiro de 1979; (viii) Aula de 7 de Março de 1979; (ix) Aula de 14 de Março de 1979; (x) Aula de 21 de Março de 1979; (xi) Aula de 28 de Março de 1979; e (xii) Aula de 4 de Abril de 1979.
Em síntese, na sua obra (fruto do curso), Foucault pretende estudar o liberalismo como quadro geral da biopolítica; ou em outras palavras, o objecto do curso é portanto, de mostrar que o liberalismo é a condição de inteligibilidade da biopolítica.
Em seguida, tentaremos em poucas palavras, sintetizar as aulas de Foucault, trazendo à tona a essência do pensamento deste exímio professor e pensador.

(i)                 Aula de 10 de Janeiro de 1979
Nesta aula introdutora do curso, Foucault começa por introduzir o seu objecto – a racionalização da prática governamental no exercício da soberania política – e partindo de uma decisão, ao mesmo tempo teórica e metodológica, estabelece o seu método que consistiu em supor que os universais (estado, governo, súbitos) não existem. Apresenta igualmente um resumo do curso anterior e aponta os limites de direito exteriores ao Estado, a razão de Estado. Por fim Foucault introduz o liberalismo.

(ii)               Aula de 17 de Janeiro de 1979
Apresenta o liberalismo e a adopção de uma nova arte de governar no século XVIII. Discute a constituição do mercado como lugar de formação da verdade e não mais apenas como domínio de jurisdição; e os limites jurídicos para exercício de um poder público. Na essência, a aula faz a análise do governo, da sua prática, dos seus limites de facto, dos seus limites desejáveis e formula a questão fundamental do liberalismo: “qual o valor de utilidade do governo e de todas as acções do governo numa sociedade em que a troca é que determina o verdadeiro valor das coisas”?

(iii)              Aula de 24 de Janeiro de 1979
É consagrada ao estudo das características específicas da arte liberal de governar, tal como se esboça no século XVIII. Foucault aborda também a questão do equilíbrio europeu e das suas relações internacionais, onde a Europa vê-se como uma região económica particular diante, ou no interior, de um mundo que deve constituir para ela um mercado. Por fim, analisa as crises do intervencionismo e do liberalismo, donde se conclui que as crises do liberalismo encontram-se ligadas as crises da economia do capitalismo.

(iv)             Aula de 31 de Janeiro de 1979
Apresenta a fobia do Estado, onde equipara o medo em relação à bomba atómica como o medo em relação ao Estado. Foucault assume que essa fobia do Estado parece ser um dos sinais maiores das crises de governamentalidade liberal. Por causa disso, ele nega-se a constituir uma Teoria de Estado.

(v)               Aula de 7 de Fevereiro de 1979
Descreve o neoliberalismo alemão e aponta o “seu problema”: como a liberdade económica pode ao mesmo tempo fundar e limitar o Estado? A resposta de Foucault começa a desenhar-se a resposta do século XVIII, quando parte do princípio de que esse mercado, por sua conta, esse mercado regido pelo laissez-faire, vai ser um princípio de enriquecimento, de crescimento e, por conseguinte, de poder para o Estado: alcançar mais Estado com menos governo – eis a questão. Mas na verdade, não parece ser simples assim, visto Foucault apresenta seguidamente vários obstáculos que o liberalismo alemão enfrenta.
Conclui o autor que a relação entre uma economia de concorrência e o Estado não pode mais ser de delimitação recíproca de áreas diferentes, isto porque não existe concorrência perfeita, ou seja, a concorrência perfeita deve ser produzida, e produzida por uma intervenção do Estado forte.

(vi)             Aula de 14 de Fevereiro de 1979
Destaca o neoliberalismo alemão e as suas principais diferenças com o liberalismo clássico. Define o neoliberalismo segundo diversos pontos de vista (económico, sociológico e político). Para Foucault, o desafio do neoliberalismo é saber como se pode regular o exercício global do poder político com base nos princípios de uma economia de mercado.

(vii)           Aula de 21 de Fevereiro de 1979
Aborda o segundo aspecto da "política de sociedade" conforme os ordoliberais, baseado no princípio de mercado, por um lado, e política social activa, intensa e intervencionista do outro lado; que se consubstancia no problema do direito numa sociedade regulada segundo a modelo da economia concorrencial de mercado. O Estado de direito é o principal assunto desta aula.
A conclusão geral que se depreende tange a especificidade da arte neoliberal de governar na Alemanha que, põe face a face, o ordoliberalismo e o pessimismo de Schumpeter, que, resumindo, de um ponto de vista económico e puramente económico, consideram o capitalismo perfeitamente viável.

(viii)         Aula de 7 de Março de 1979
Tange às observações gerais. Enuncia duas teses sobre o Estado totalitário e o decrescimento da governamentalidade do Estado no século XX. Foucault assinala que o Estado totalitário não é, em absoluto, a exaltação do Estado, mas institui, ao contrário, uma limitação, uma atenuação, uma subordinação da autonomia do Estado, da sua especificidade e do seu próprio funcionamento em relação ao partido (primeira tese) e que o decrescimento da governamentalidade do Estado ocorre com o crescimento da governamentalidade de partido (segunda tese). Nesta aula, Foucault igualmente faz observações sobre a difusão do modelo alemão, na França e nos Estados Unidos. Aborda o modelo neoliberal alemão e o projecto francês de uma "economia social de mercado".

(ix)             Aula de 14 de Março de 1979
Elabora uma análise em torno do neoliberalismo americano, seu contexto e diferenças entre o neoliberalismo americano e europeu. Foucault considera que o contexto que levou a eclosão do neoliberalismo americano não difere do alemão e do francês, note-se, (i) a existência do New Deal e a crítica ao New Deal; (ii) o Plano Beveridge e todos os programas de intervencionismo económico e de intervencionismo social que foram executados durante a guerra; e (iii) todos os programas sobre a pobreza, a educação, a segregação, que se desenvolveram na América desde o governo de Truman até a governação Johnson.
Em súmula, estes três elementos são do mesmo tipo daquele que encontramos, por exemplo, na França, onde o neoliberalismo também se revelou por antítese à Frente Popular", as políticas keynesianas do pós-guerra e à planificação.

(x)               Aula de 21 de Março de 1979
Volta a fazer uma análise do neoliberalismo americano, mas desta vez, aborda a maneira de como os americanos tentam utilizar a economia de mercado e as análises características da economia de mercado para decifrar as relações não-mercantis, não propriamente económicos, mas sim fenómenos sociais. Retorna neste capítulo, a problemática dos ordoliberais sobre a regulação económica indispensável a formação dos preços. Aborda também aspectos relacionados com o problema da reforma do direito penal e faz uma incursão sobre o crime numa perspectiva neoliberal, discutindo e relacionando os termos de homo penalis, homo criminalis, homo legalis e homo economicus.

(xi)             Aula de 28 de Março de 1979
Trata do aparecimento da concepção de homo economicus, como sujeito de interesse diferente do sujeito de direito, no pensamento do século XVIII, e da noção de "sociedade civil", dependente da tecnologia liberal de governo. Foucault examina que o homo economicus é aquele que aceita a realidade. Como ele próprio diz, o homo economicus é aquele que atende ao seu interesse, é o tal cujo interesse é tal que, instintivamente, vai afluir com o interesse dos outros. O homo economicus é, na perspectiva de uma teoria do governo, aquele em que não se deve mexer. Deixa-se o homo economicus fazer. É o sujeito ou o objecto do laissez-faire. É, em todo caso, o parceiro de um governo cuja regra é o laissez-faire.

(xii)           Aula de 4 de Abril de 1979
Faz uma continuação da aula passada, no sentido em que aborda o homo economicus e a sociedade civil. Foucault mostra que a emergência da noção de homo economicus representa uma espécie de provocação política ao conceito tradicional, à ideia jurídica, absolutista ou não, aliás, do rei. Quanto à sociedade, o homo economicus e a sociedade civil são portanto dois elementos indissociáveis. Logo, homo economicus e sociedade civil fazem parte do mesmo conjunto, o conjunto da tecnologia da governamentalidade liberal. Posteriormente, Foucault resume a questão que caracteriza a racionalidade liberal: a questão de como regular o governo, a arte de governar; como fundar o princípio de racionalização da arte de governar no comportamento racional dos que são governados?
Por fim, Foucault encerra a sua análise postulando que a política emana, simultaneamente, do jogo das diferentes artes de governar com seus distintos indexadores, e o debate que essas mesmas diferentes artes de governar suscitam.

Conclusão
Foucault apresentou nas suas aulas (a obra propriamente dita) uma exposição ou incursão, se assim o quisermos, sobre o liberalismo. Fazendo uma descrição metódica e fenomenológica do liberalismo (que ele chama de racionalidade governamental), analisando a partir de preceitos históricos, sociológicos e antropológicos, Foucault desnuda o liberalismo como uma nova racionalidade na arte de governar: governar menos, para ter eficiência máxima. Mais do que o objecto do curso por si ministrado, o liberalismo é condição para se compreender a biopolítica [a política], uma vez que interpõe em o estado/governo, o governado, a sociedade civil e o mercado numa bandeja interdependente no entanto cada vez mais livre.

Teoria de desenvolvimento de estágios lineares versus teoria da base de exportação no âmbito do desenvolvimento regional



O desenho de cenário optimista sobre a questão do desenvolvimento conduziu ao longo das épocas a eclosão de uma discussão acesa e uma literatura rica sobre a matéria, isto porque, sempre foi do interesse do homem, descobrir as causas do processo de desenvolvimento económico das regiões ou nações. Surgiram assim, desde Ricardo, Quesnay, até aos nossos dias, diversas teorias/modelos que, com premissas elaboradas expuseram (outras nem tanto) a realidade da época, tentando explicar (não obstante as limitações) as razões do desenvolvimento. A Teoria de desenvolvimento de estágios lineares foi uma delas, que essencialmente, era um conjunto de escolas de pensamento que pretendiam explicar porque o desenvolvimento se verificara em alguns países, e em outros não. Limitado por sua visão simplista do terceiro mundo, este conjunto de modelos tornou-se bastante incrédulo. Entretanto, a Teoria da base de exportação, desenvolvida por North, defende que o desenvolvimento de uma região depende desde o início da capacidade de produzir artigos exportáveis, o que grandemente contraria as correntes de pensamento de estágios lineares, que afinal, defendiam que o desenvolvimento seguia um conjunto cadenciado de estágios ou etapas. O presente trabalho ousa discutir as duas teorias supracitadas, daí que somos cautelosos em questionar até que ponto, a teoria da base de exportação de North refuta a teoria de estágios lineares?

 

Revisão da Literatura

Segundo Todaro (2000), após a Segunda Guerra Mundial, a Teoria dos Estágios Lineares foi elaborada por economistas dos países capitalistas para entender a transformação das sociedades agrárias em potências económicas. Deste modo, seria provável projectar um percurso de modernização em países da América Latina, Ásia e África comparável aos caminhos dos países na época industrializados.
Rostow, o mais influente desta teoria, em sua obra publicada em 1960[1], defende que as sociedades – no decorrer do processo de evolução económica –, passam por cinco etapas distintas e sequenciais, determinantes do estado de progresso socioeconómico vigorante.
O modelo de Harrod-Domar desenvolvido nos anos 30 para investigar ciclos empresariais foi posteriormente adaptado para ‘explicar' o crescimento económico. O modelo indica que as poupanças provejam de fundos que são concedidos para propósitos de investimento. Para este modelo, o crescimento económico depende da quantia de trabalho e capital (Bresser-Pereira, 1975; Todaro, 2000)
A Teoria da base de exportação foi desenvolvida por North por volta de 1960. A ideia fundamental da teoria da base exportadora é a de que o aumento das exportações, gera efeitos de multiplicação e de aceleração no sector de mercado interno, não exportador, produzidos pelo efeito-renda e pelos efeitos de encadeamentos para trás e para frente no processo produtivo, criando demanda por serviços, como transportes, comunicações, financiamentos, etc. [...] As exportações são consideradas actividades básicas porque exercem efeito multiplicador sobre as actividades de mercado interno (Silva, 2005: 4; Munduruca, 2010: 20).
Segundo Jacobs (1969), apud Lima e Simões (2010), para crescer é essencial exportar e produzir internamente bens e serviços, quer dizer, adicionar novo trabalho é fundamental para criar e recriar economias; então, para se desenvolver é essencial o crescimento do produto e adição de trabalho em diferentes períodos de tempo, ou seja, para prosperar é preciso inovar e diversificar continuamente.
Entretanto, dois factores devem ser tomados em consideração, (a) o efeito multiplicador das exportações – que são uma variável chave para o crescimento de um país e, (b) o efeito multiplicador das importações, que apenas funciona quando não há redução das exportações e da capacidade de gerar novos bens exportáveis (Paiva, sd; Scazufca, 2000; Zucatto et al, 2000).

 

 Teoria de desenvolvimento de estágios lineares

Já foi dito que logo a Segunda Guerra, a Teoria dos Estágios Lineares foi empregada por economistas dos países capitalistas para compreender a transformação das sociedades agrárias em potências económicas, na tentativa de delinear um percurso de desenvolvimento em países não industrializados semelhante aos caminhos dos países então industrializados. A seguir destacaremos os modelos que mais se evidenciaram nesta teoria.

 

O Modelo de Rostow e as etapas históricas

Walt Whilt Rostow utiliza uma metodologia histórica para dar suporte à sua teoria e buscar o entendimento do processo de desenvolvimento económico.
Segundo Rostow, O factor político, e mais especificamente o ideal nacionalista, é preponderante na efectiva transição da sociedade tradicional para uma sociedade moderna. A questão importante é direccionar essa força nacionalista no sentido da mudança, quebrando elos de poder criados em âmbito regional por proprietários de terras empoderados por um poder colonial; e este processo, em sociedades tradicionais, é delicado.
Para Rostow, as sociedades – no decorrer do procedimento de desenvolvimento económico –, passam por cinco etapas distintas e sequenciais, fundamentais do estado de progresso socioeconómico vigente, nomeadamente: (i) a sociedade tradicional; (ii) as pré-condições para a decolagem (iii) a decolagem; (iv) marcha para a maturidade; e (v) a era do consumo em massa.

 

A sociedade tradicional

A sociedade tradicional, com predomínio de práticas rotineiras e antiquadas de produção é a primeira categoria descritiva. A actividade económica básica é a agricultura, caracterizada por uma produção instável e de pequeno rendimento per capita, devido aos factores exógenos que fogem ao controle desta categoria de sociedade, como: pragas, secas e guerras.
Nesta configuração, a forte presença de laços familiares é marcante e o centro do poder político e económico se restringe aos proprietários de terras. Rostow estudou nesta esfera da sociedade as mudanças políticas, económicas e de estrutura social.

 

As pré-condições para a decolagem

Neste segundo estádio da cronologia do desenvolvimento, a população começa a aceitar e reter os conhecimentos científicos e tecnológicos, e começa um processo de formação de um estado político nacional. Ocorre a diversificação das actividades económicas e, consequentes deste processo, aparecem mudanças nas estruturas institucionais vigentes.
A agricultura cede espaço aos sectores industriais e de serviços, todavia ganha consideração como supressora de alimentos para a população, tendo a produção agrária um papel importante na geração de demanda para produtos manufacturados, além de fornecer recursos para investimentos em outros sectores da economia.
Como efeito da maior educação entre a população, há uma queda na taxa de natalidade, contra-balanceada devido às melhores condições médico-sanitárias, tornando racionalmente positivo o crescimento populacional. A educação toma lugar de realce entre as medidas priorizadas pela população, sendo os laços familiares substituídos pelas habilidades individuais, como objecto de valoração social. Fortes investimentos são realizados, em grande parte pelo Estado, em infra-estrutura de transportes e comunicações.
Rostow reconhece que a mudança da ‘Sociedade Tradicional’ para uma sociedade em “Pré-condições para o decolagem” é suportada por agentes endógenos disponíveis ao alcance da sociedade. O autor cita, como exemplo, que as transformações ocorridas na Europa Ocidental e que resultaram na transição do estágio de desenvolvimento foram pautadas na geografia favorável, na disponibilidade de recursos naturais, no comércio externo e em estruturas sociais e políticas adequadas. Em contrapartida, outras regiões do mundo em que não aconteceram mudanças desta ordem, factores exógenos são responsabilizados pelo relativo impulso imposto à comunidade. Estes factores exógenos decorrem – principalmente – da influência de sociedades mais adiantadas que, buscando interesses próprios, acabam por acelerar o desenvolvimento destas sociedades mais tradicionais.


A decolagem (Take-off)

A principal característica deste estágio é o aumento da taxa de investimento líquido produtivo, que de 5% da renda nacional na fase anterior, passa a 10%. Como resultado deste incremento, os sectores industrializados passam a crescer a taxas maiores que os outros sectores da economia. O aumento generalizado da renda dentro do sistema económico propicia o aumento da renda per capita.
Rostow chama a atenção para o rápido desenvolvimento de uma estrutura político-social e institucional, que proporcione uma sustentação da expansão económica por vinte anos, tempo de duração médio desta fase.
Passados estes vinte anos, marcados pelo Take-off, a sociedade passa por mais quarenta anos em uma condição descrita por Rostow como A Marcha para a Maturidade.

 

Marcha para a maturidade

Neste estágio, o domínio da tecnologia e a capacidade de produção de qualquer bem industrial são realidades. O ritmo de investimento chegará a 20% da renda nacional, de forma a ultrapassar o ritmo de crescimento populacional. A indústria, e principalmente os serviços, compreendem a maior parte da actividade económica. Estas condições económicas aspiram a gerar um processo de substituição de importações combinado com um marcante aumento nas exportações. O crescimento se torna auto-sustentado.

 

A era do consumo em massa

Nesta fase, a população experimenta um alto nível de vida. Este nível de vida é caracterizado pela transposição dos parâmetros de consumo básico pela população, que usufrui do conforto que uma sociedade altamente industrializada oferece. A produção e comercialização de bens duráveis representam a maior parte da economia, em especial os de elasticidade-renda elevada. A Europa Ocidental e o Japão, para Rostow, entraram nesta fase na década de 1950.
Os Estados Unidos, na referida época, passaram da Era de Consumo em Massa para uma etapa posterior, denominada de Para Além do Consumo em Massa. As necessidades das pessoas são geradas pelo esforço de marketing das grandes empresas e as motivações para o consumo emanam de aspirações sociais, como prestígio ou exclusividade.
Em fim, as sociedades, em sua trajectória de desenvolvimento, estão condicionadas pelo determinismo histórico de Rostow, onde o progresso é um processo incremental e relaciona-se estritamente com o esforço económico, político e social advindo do interior da sociedade.

 

4.2. Modelo de Harrod-Domar

O modelo de Harrod-Domar foi o primeiro modelo específico de crescimento a ser elaborado. Sem dúvida, Ricardo, Marx e Schumpeter já haviam elaborado modelos de desenvolvimento. E na obra de outros economistas já estavam contidos modelos de desenvolvimento, mas nunca sob a forma explícita e precisa do modelo de Harrod-Domar. Mais importante que essa prioridade no tempo, porém, este modelo apresenta uma característica que o torna notável: sua extrema simplicidade (Bresser-Pereira, 1975).
Em síntese, o modelo de Harrod-Domar sugere que as poupanças provejam de fundos que são emprestados para propósitos de investimento. Quer isto dizer que, a taxa de crescimento da economia depende: (i) do nível de poupança e relação/razão das poupanças; e (ii) da produtividade do investimento, isto é, da relação ou razão de capital-produção da economia (Todaro, 2000).
O modelo de Harrod-Domar defende que o crescimento económico depende da quantia de trabalho e capital, isto é NY = f (K, L). O modelo explica que os países em desenvolvimento têm uma provisão abundante de trabalho, entretanto, é a falta de capital físico[2] que retarda ou detém o crescimento económico e consequentemente o desenvolvimento económico.
Tem-se, portanto, que, para um desenvolvimento em condições de equilíbrio, a taxa de crescimento da renda deverá ser igual à taxa de crescimento dos investimentos, e ambas deveriam ser iguais ao produto da relação produto-capital pela propensão marginal a poupar. Por outro lado, na medida em que a relação média e marginal produto-capital são constantes, o stock de capital deve também crescer à mesma taxa que a renda.
O sistema capitalista, segundo este modelo, é necessariamente dinâmico, para que haja equilíbrio, mas este só ocorrerá por simples acaso, já que os mecanismos de mercado não o garantem. (Bresser-Pereira, ibid.). Entretanto, o dinamismo do sistema decorre da dupla função do investimento: de um lado, determina a demanda agregada, via multiplicador, de outro, produz um aumento da oferta; através da função de produção. Se o investimento for positivo, mas não crescer, a economia deixará ociosa parte de sua capacidade produtiva crescente, já que a oferta agregada continuará a crescer (dada a acumulação líquida de capital positiva), enquanto a demanda agregada permanecerá estagnada (dada a manutenção do mesmo volume absoluto de investimentos). É preciso, portanto, que o investimento seja não apenas positivo, mas cresça sempre, à mesma taxa do crescimento da renda para que a economia encontre o difícil e único caminho do equilíbrio (nosso sublinhado).
O modelo Harrod-Domar faz, portanto, uma preferência clara por um tipo de crescimento instável, em que as três variáveis básicas do modelo, a taxa natural de crescimento, ΔY/Y (correspondente à taxa de crescimento da população somada à taxa de desenvolvimento tecnológico), a propensão marginal a poupar e a relação produto-capital são determinadas independentemente. Além disso, estas duas últimas variáveis são consideradas constantes. Nesses termos, conforme muitos estudiosos afirmam, o modelo conduz a um tipo de crescimento instável.

 

Implicações do Modelo Harrod-Domar

Este modelo de crescimento económico requer políticas que encorajam a poupança e/ou gerem avanços tecnológicos que mais baixa relação/razão de capital-produção.
 Críticas ao modelo

·        É difícil de estimular o nível desejado de poupanças domésticas;
·        Resolvendo um hiato de poupança pedindo emprestado de fora, mais tarde problemas de reembolso de dívida;
·        Existem lucros marginais decrescentes em relação ao equipamento de capital. Assim cada unidade sucessiva de investimento é menos produtiva e a relação entre capital e produção aumenta;
·        Crescimento económico é uma condição necessária mas não suficiente para desenvolvimento;
·        Despreza outros sectores ou determinantes económicos que são importantes (isto é agricultura, indústria, serviços).


Teoria da base de exportação

A teoria da base económica ou base de exportação atribui às actividades de exportação – básicas – um papel estratégico e motor no desenvolvimento regional (Hoyt, 1939, 1954; North, 1955; Tiebout, 1956). Desta forma, o volume de produção e de emprego de uma região depende das suas actividades de exportação as quais induzem, através de mecanismos de interdependência na produção e no consumo, o crescimento do emprego e do rendimento das actividades a montante e das actividades orientadas para a satisfação das necessidades de consumo da população.
A Teoria da base de exportação, grandemente defendida por Douglas North[3], como já dissemos, trata da ideia de que as exportações de uma região são responsáveis por seu desenvolvimento económico. De acordo com esta linha de pensamento, o que define uma região é o seu desenvolvimento em torno de uma base de exportação comum (Scazufca, 2001).
As exportações desempenharão importante papel na determinação da renda per capita e absoluta de uma região. Isto porque o emprego na indústria local tende a manter uma certa proporção com o emprego na indústria básica. Dessa maneira, se as exportações são bastante rentáveis, as actividades desenvolvidas localmente serão contaminadas por este efeito positivo e poderão se expandir na medida que a actividade básica se expande. Uma vez que ocorre o sucesso da actividade básica, novas inversões serão feitas no sector, e terão como resultado não apenas o aumento do emprego no sector exportador, mas também o aumento do emprego nas actividades locais.
Um ponto a ser destacado é o de que a utilidade económica de uma região se apoia na sua especialização. Além disso, a base económica deve ser a principal fonte de explicação para o crescimento de uma região, uma vez que a influência da oportunidade económica, devido às vantagens comparativas de uma região na produção de determinados bens e serviços, foi o principal factor das taxas diferenciais de crescimento de diferentes regiões.
De acordo com Zucatto et al (1999), o modelo de desenvolvimento ideal é aquele que se fundamenta na combinação da expansão rápida das exportações, com substituições selectivas de importações, proporcionando transferência de tecnologia e diversificando interdependências entre as actividades económicas.
Análise: teoria de estágios lineares vs a teoria base exportação – uma abordagem para o desenvolvimento regional
Como pudemos ver, Rostow não procura dar uma receita para o desenvolvimento, ele parte da ideia de que há relação entre determinantes sociais e estágios económicos como parte do processo histórico de desenvolvimento económico. Fazendo uma descrição histórica das condições sociais e económicas de uma sociedade, observando a taxa de crescimento demográfico, taxa de investimento líquido, produto nacional bruto, tecnologia disponível e estrutura social, ele chega a conclusão de que uma sociedade pode ser dividida em estágios de desenvolvimento, de acordo com sua condição socioeconómica. Entretanto, mesmo assim, Rostow faz menção ao papel dos factores endógenos que existem no local como pré-condição para o Take-off.
O modelo de Harrod e Domar dá uma receita de crescimento económico, não de desenvolvimento económico. O crescimento económico é uma condição necessária mas não suficiente para desenvolvimento, e mesmo assim, de um crescimento instável. Devido às variáveis em jogo, o modelo induz a um processo de concentração de renda. Mais ainda, o modelo oferece maior atenção ao capital e às poupanças, o que em muitas sociedades é difícil de estabelecer o nível de capital e o nível de poupança desejado. Mais crítico ainda, o modelo desvaloriza os bens subsidiários ou sucedâneos, o que na realidade do modelo, se contradiz com a realidade das sociedades ou comunidades que constantemente lutam por criar ou substituir uns bens por outros, ao mesmo tempo que isso se traduz em busca de capital, poupanças ou tecnologias.
 A teoria da base exportadora de Douglas North tem sido fundamental para explicar o dinamismo das regiões nas suas primeiras fases de desenvolvimento. Assim parte-se da premissa de que o desenvolvimento de uma região passa também pela exportação dos produtos locais, seja esta para outras regiões ou outros países, pois aumentam o crescimento das empresas exportadoras, internalizando recursos na região.
A teoria das exportações é contrária a ideia de Rostow (crescimento linear), mas quase assumem posições semelhantes em relação aos factores endógenos que criam o crescimento para Rostow, e o desenvolvimento para North. Na verdade, a base de exportação desempenha um importante papel na determinação do nível de renda absoluta e per capita de uma região.
Ao primar as poupanças, o capital e as relações capital-produção, o modelo Harrod-Domar esquece-se de sectores como a agricultura, industria e serviços. Contrariamente, à medida que a base exportadora se fortalece, há reinvestimentos para expansão das actividades, o que possibilita que a população, renda e poupanças locais cresçam. Quer dizer, quanto a questão de capital e produção (ou seja, o emprego), a teoria de base económica, através do seu efeito multiplicador de exportações satisfaz mais convincentemente em relação ao modelo Harrod-Domar, isto porque o multiplicador será importante para captar dois efeitos: 1) a variação total no produto devido ao aumento das exportações e do investimento e 2) a variação total no emprego devido ao aumento do emprego na actividade exportadora.

 

Conclusão

Após a apresentação e discussão de argumentos propostos para esta análise, cabe-nos reter o seguinte: (i) a teoria de estágios lineares (modelo de Rostow e modelo Harrod-Domar) não é suficiente para explicar o desenvolvimento/crescimento regional; (ii) é quase impossível perceber a aplicação do modelo de Rostow no desenvolvimento regional, por exemplo, de um distrito. A abordagem de Rostow é entretanto mais ampla e explica de modo substancial, numa perspectiva histórica, os estágios de desenvolvimento – o que nos leva a crer que a teoria de desenvolvimento baseada nas exportações, não obstante os seus limites, melhor se adequa na procura de uma receita para o desenvolvimento; (iii) a teoria da base económica centra-se em dois elementos fundamentais: o dinheiro que entra na região graças às actividades básicas de exportação e os efeitos de propagação, devido ao impacto multiplicador, desse dinheiro na região, o quer dizer que, diferentemente do modelo de Harrod e Domar, que incentiva a poupança numa região supostamente sem condições para tal, a teoria de base de exportações cria através do seu efeito multiplicador condições para a poupança e investimentos que se reflectem na criação de investimento, turismo, transferência de capital e tecnologia e a criação de um espaço ou parque industrial concorrencial ou complementar.

 

 Referências Bibliográfica


BRESSER-PEREIRA, Luiz Carlos (1975) O Modelo Harrod-Domar e a Substituibilidade de Factores. Estudos Económicos: sl.
LIMA, Ana Carolina da Cruz; SIMÕES, Rodrigo Ferreira (2010). Teorias Clássicas do Desenvolvimento e suas implicações de política económica: o caso do Brasil. RDE – Revista de Desenvolvimento Económico, Salvador.
MUNDURUCA, Danilo Felipe V. (2010) Comércio Exterior como Estratégia de Crescimento Económico: Uma Proposta de Priorização de Produtos Exportáveis para a Economia Sergipana. Universidade Federal de Sergipe: Sergipe.
PAIVA, Carlos Águedo (sd) Demanda Efectiva, Exportações e Desenvolvimento Regional. Universidade de Santa Cruz: Santa Cruz.
SCAZUFCA, Pedro Silva (2004) Impactos Locais da Descoberta de Gás na Bacia de Santos. Universidade de São Paulo: SP.
TODARO, Michael P. (2000) Economic Development. 7ª Ed. Adisson-Wesley: Massachusetts.
ZUCATTO, Luís Carlos; FERASSO, Marcos e EVANGELISTA, Mário L. S. (2008) A Importância das Exportações para o Desenvolvimento Local da Fronteira Noroeste do Rio Grande do Sul e do Extremo-Oeste de Santa Catarina – Um Estudo de Caso. Simpoi Anais: sl.


[1]The Stages of Economic Growth.
[2] Mais capital físico gera crescimento económico.
[3] NORTH, Douglass C. Location Theory and regional economic growth. Journal of Political Economy, 63(3), p.253